INDAGAÇÕES E OUTROS RITUAIS

segunda-feira, agosto 20, 2012
HÁ UM ANO...
... estávamos iniciando o Caminho de Santiago. Na véspera, uma das missas mais emocionantes das nossas vidas:
(na nossa, todas as luzes foram apagadas no Salve Regina, só o altar consagrado a Nossa Senhora de Roncesvalles ficou aceso).
No dia 20 de agosto de 2011, o nosso primeiro passo:
Fiquei aqui super melancólico e saudoso, mas me lembrei do que a Isabela (a sempre sábia Isabela) me diz com alguma frequência: mesmo as coisas boas têm que passar, para dar espaço para outras coisas boas.
O que, no fundo, tem tudo a ver com o Caminho, já que insufla a necessidade de se andar pra frente.
Ultreya!
sexta-feira, agosto 17, 2012
AINDA SOBRE O PROCESSO DA DOR
Acho que eu nunca tinha sido portador de más notícias antes.
Graças a Deus. Pra falar a verdade eu sempre fiz o impossível para ser o
primeiro a dar uma boa notícia – por exemplo, eu fiquei dando F5 no resultado
do concurso da Isabela porque queria ser o primeiro a dizer que ela estava
aprovada. Não consegui, uma amiga foi mais rápida.
Mas tergiverso. Sobre as más notícias: eu fiz tudo muito
rápido e com eficiência. Em menos de meia hora estava a caminho, mas na verdade
queria era ter demorado. Queria que a viagem durasse a noite inteira e mais um
pouco, de modo que quando eu chegasse ela já soubesse de tudo sem ser pela
minha boca.
Ao mesmo tempo, queria oferecer meu colo imediatamente, para
que ela não se sentisse sozinha com a dor nem por um segundo. Era um plano
sofisticado e milimétrico, o meu. Deveria ser ensaiado e cronometrado à
exaustão. Mas alguém achou que não seria justo eu encarnar porto seguro sem ser
tempestade antes.
E lá fui eu em duas horas tristes e rápidolentas. Que eu não
queria que passassem, mas que passaram.
Fiz-me tempestade, mas pelo menos pude ser porto seguro.
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Já tinha reparado que o Indagações está muito mais pessoal
do que jamais havia permitido. Não sei por que ando autorizando isso.
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É muito triste quando se vai uma pessoa que gostava da
gente.
Alguém que sempre agradecia quando eu visitava.
Que fazia questão de escolher o meu presente de natal.
Que disse que eu era o namorado mais bonito que a Isabela já
tinha tido.
Que escreveu o significado de FINEP num caderninho para
poder explicar pros outros onde eu trabalho.
Já dizia o mestre Guima: as pessoas não morrem, ficam
encantadas.
terça-feira, agosto 14, 2012
O RESTO DO MUNDO
Recentemente apareceram uns livros do José J. Veiga lá em casa (nem lembrava que os tinha comprado) e peguei um para ler. O autor goiano é um senhor escritor brasileiro, mas é pouco conhecido. Nego enche a bola de outros autores sulamericanos do realismo mágico, mas não sabe que aqui pertinho tem um mestre do gênero.
(Recomendo "Os cavalinhos de Platiplanto", maravilhoso livro de contos. Mas olha, algumas histórias são tristes de chorar. Aliás, José J. Veiga é um autor meio triste mesmo.)
Vai daí que li "Esse Mundo de Vasabarros", que não não tinha lido ainda. E me deparei com isso:
- E se a gente fugisse? Eu e você?
- Fugisse pra onde?
- Sei lá. Pra outras terras. O resto do mundo não pode ser triste como isso aqui.
- Sei não. Não conheço o resto do mundo. Mas, se for melhor, não será porque os que vivem lá fizeram ele melhor?
segunda-feira, agosto 13, 2012
DIA DOS PAIS - COMPLEMENTAÇÃO
Escrito em um momento dificílimo, delicadíssimo, e por isso mesmo é especial e sincero:
Meu pai era um capitão de combate,
homem de encarar piratas de frente;
pacificou muitos mares,
comandava as lutas esticando as mãos
(nem sempre portavam armas,
às vezes estavam nuas).
Envelheceu cobrindo-se de cicatrizes;
pude parar de olhar o céu,
e fui buscar constelações
nas marcas da sua pele.
Era firme, impetuoso, o mar bravio.
DIAS DOS PAIS
![]() |
| Um dia chega o momento de romper as amarras (Norman Rockwell, "Breaking Home Ties") |
Um dia dos pais muito diferente. Assustadoramente diferente. Deliciosamente diferente.
Creio que há momentos na vida em que as nossas perspectivas são tão alteradas que a gente tem até dificuldade de se entender e posicionar no mundo. Mas é besteira, porque esse tipo de mudança é tão orgânica que no fundo você não precisa pensar é em nada. Tudo vai.
sexta-feira, agosto 10, 2012
A (NOT SO) VERY FAST PIG
Eu sempre acho que tenho dificuldade com o Direito. Limitação intelectual para aprender mesmo. O que me lembra um trecho do East of Eden, do Steinbeck:
- You can't make a race horse of a pig.
- No, said Samuel, but you can make a very fast pig.
Super bacana acordar todos os dias de madrugada para ser um porquinho um pouco mais rápido.
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Fui caçar essa citação no kindle ontem (como é fácil resgatar trechos destacados no kindle!), e acabei lendo todas as 723629 frases que eu marquei no East of Eden. Como esse romance é especial, meu Deus. Legal que o Steinbeck, quando concebeu a história, decidiu que seria a sua obra-prima. Detalhe: ELE JÁ TINHA ESCRITO AS VINHAS DA IRA.
Monstro.
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Digamos que Deus me pedisse de última hora um relatório sobre o funcionamento básico do ser humano. Eu tiraria muita onda ao apresentar DOIS relatórios de uma vez, e sem fazer hora extra: East of Eden e Les Misérables.
quinta-feira, agosto 09, 2012
AS PIADAS DE ANTÓNIO GEDEÃO
(se eu fosse chamar meu filho de Antonio, ficaria muito tentado a colocar o acento agudo. Acho o máximo).
Eu amo os poemas de António Gedeão não só porque eles dão os toques certos, mas também porque me fazem rir, sempre.
Tipo o poema que eu transcrevi ontem, em que ele fala E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto (o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império) com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil. É bom demais, porque é leve e debochado e sutil.
Tem outro divertidissímo que é uma espécie de carta a Galileu Galilei (leia a íntegra aqui), em que ele fala Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de pano. Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença. (Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria dos Ofícios.)
Não tem como não rir. Não tem como não soltar o ar preso na cabeça e nos ombros e na boca e nos olhos e sentir-se leve por algum tempo.
quarta-feira, agosto 08, 2012
NO CAMINHO DA INSANIDADE
Depois do surpreendente (e preocupante) episódio em que fiquei feliz por comprar um livro jurídico, ontem acendeu o sinal amarelo.
Vai daí que estava querendo (na verdade, precisando) ler 2 poemas que eu JURAVA serem do Davi Mourão-Ferreira. Passei os olhos pelas suas obras completas e nada. Aí deixei o orgulho de lado e fui pro Google para descobrir que os poemas eram na verdade do António Gedeão.
Gente.
Eu li Gedeão tantas vezes, seus versos já foram minha frase de msn, título de coluna no Café Castanheira, e eu puff - simplesmente apaguei seu nome da minha cabeça.
Assustador.
Mas enfim, a gente faz o que pode. E os poemas seguem abaixo, porque são ultra-mega-blaster incríveis e verdadeiros
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Poema do alegre desespero
Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,
ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.
Compreende-se.
E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.
Compreende-se.
Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.
Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.
E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
(para que serve o nosso sofrimento, né?)
Impressão digital
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
(eu sempre vi gigantes, hoje vejo moigantes ou giguinhos)
