INDAGAÇÕES E OUTROS RITUAIS

quinta-feira, março 28, 2013
10 ANOS
Agora em março esse blog fez 10 anos e eu esqueci. Simples assim. Eu até tinha pensado, ano passado, em fazer uma retrospectiva, sei lá, reeditando alguns posts de que eu gosto mais. Talvez ainda o faça, porque eu amo reler esses textos antigos, que dizem tanto sobre mim, mais do que se fosse um diário com acontecimentos lineares e diretos. Porque os meus palimpsestos são infinitamente mais reveladores.
Do menino que, ingenuamente, reclamava da guerra do Iraque no segundo post, ao adulto que no último se divertia com um Hobbes para chamar de seu, muita, mas muita coisa mudou.
Eu morei em outras duas cidades além de São Sebastião: St. John e Sugar Fields. Amei ambas, tanto quanto amei voltar pra casa. Nunca o Reino Imóvel da Pedra Lispe Alumiosa foi tão móvel. E que continue se movendo.
Tive 3 empregos diferentes, nos quais tive as mesmas vitorias e cometi os mesmos erros. Acertei e errei igual até num intervalo sabático entre eles. Mas aprendi (na marra) a ter humildade e, principalmente, paciência. Porque o tempo de Deus é diferente, e a gente acha que um ciclo já se encerrou mas tem que esperar a decisão divina, essa sim sempre infalível.
Magoei um monte de gente, inclusive eu mesmo. Rectius, principalmente eu mesmo. Mas perdi perdão e fui perdoado, menos por mim mesmo. Por enquanto.
Escrevi muito, ouvi muita música, e, sobretudo, li demais. Até parar quase completamente de ler.
Fiz as melhores viagens do mundo. Usei o blog como guia e diário de bordo.
Caminhei a Santiago, e nunca mais parei de andar. E estou sempre atento às flechas amarillas.
Casei com a mulher das minhas vidas: passadas, presentes e futuras.
Não plantei arvore nenhuma, e escrevi livros que tive o bom senso de não publicar.
Mas fiz um filho, que é a verdadeira noção de movimento da vida.
Tudo anda para frente, tudo se perpetua e no fim das contas é a nossa bondade e a nossa caridade que ficam no registro de Deus.
10 anos em que fui irônico, covarde, otimista, lírico.
E muito feliz. Guardo todas as minhas indagações no travesseiro.
terça-feira, dezembro 04, 2012
AO QUERIDO AMIGO
Sabe, Hobbes, você é o meu melhor presente de natal

Ano que vem vamos torcer juntos pelo penta
E é você que vai me acompanhar nas festas da (urgh!) Susie Derkins.
(Peraí, você está usando GRAVATA???)

Já vi que precisaremos entrar no transmogrifier para resolver essa questão
(eu vou ser um dinossauro, não, um tigre!)
E seremos os mais condecorados membros do G.R.O.S.S. (Get Rid Of Slimmy girlS)
E acho que não será tão absurdo assim (dadas as circunstâncias) criar uma nevasca imaginária para andarmos juntos de trenó.
Tô te esperando para jogarmos Calvinball!
(cedo ou tarde, todos os jogos viram Calvinball!)
quarta-feira, outubro 31, 2012
AUSÊNCIAS
O sabiá no sertão, quando canta me comove;
Passa 3 meses cantando, e sem cantar passa 9;
Porque tem a obrigação, de só cantar quando chove.
É bem isso, né? Se não tem chuva, o sabiá não consegue cantar.
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Deu uma saudade danada de Cordel do Fogo Encantado:
sexta-feira, setembro 28, 2012
SOBRE O QUE SE ENXERGA
Hoje de manhã um estagiário aqui do trabalho comentou que descobriu precisar usar óculos. No meio do papo, pegou os óculos de outro advogado e botou no rosto.
E ficou espantado com o que viu.
Fui imediatamente teletransportado pro sertão de Minas Gerais, mais precisamente para o Mutum, aquele lugar bonito, entre morro e morro...
Só pode ser uma sexta-feira iluminada, se o estagiário, aqui do lado, teve um dia de Miguilim.
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************
"− Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista?
(...)
− Este nosso
rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...
E o senhor
tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
− Olha,
agora!
Miguilim
olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e
diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de
areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão
de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... O
senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava,
contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o
senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de
usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José
Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompasso, ele
careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, à Mãitina. A Chica
veio correndo atrás, mexeu: − “Miguilim, você é piticégo...” E ele repondeu: − “Donazinha”...
Quando
voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.
− Você está
triste, Miguilim? Mãe perguntou.
Miguilim não
sabia.
(...)
− Pra onde
ele foi?
− A foi p´ra
a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã,
antes de ir s´embora para a cidade. Disse que, você querendo, Miguilim, ele
junto te leva... – O doutor era um homem bom, levava o Miguilim, lá ele
comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. – “Você
mesmo quer ir?”
(...)
− “Miguilim,
você está aprontado? Está animoso?” Miguilim abraçava todos, um por um, dizia
adeus até aos cachorros, ao Papaco-o-Paco, ao gato Sossõe que lambia as
mãozinhas se asseando. Beijou a mão da mãe do Grivo: − “Dá lembrança ao seo
Aristeu... Dá lembrança a seo Deográcias...” Estava abraçado com Mãe. Podiam
sair. Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente ao doutor. Todo tremia,
quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor
entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim. E Miguilim
olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima
do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral,
o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o
gado pastando, perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde
dos buritis, na primeira vereda. O Mutúm era bonito! Agora ele sabia. Olhou Mãitina,
que gostava de o ver de óculos, batia palmas-de-mão e gritava: − “Cena,
Corinto!... Olhou o redondo de pedrinhas, debaixo do jenipapeiro.
Olhava mais
era para Mãe. Drelina era bonita, a Chica, o Tomezinho. Sorriu para Tio Terêz: −
“Tio Terêz, o senhor parece com Pai”... Todos choravam. O doutor limpou a
goela, disse: − “Não sei, quando eu tiro esses óculos, tão fortes, até meus
olhos se enchem d`água...” Miguilim entregou a ele os óculos outra vez. Um
soluçozinho veio."
terça-feira, setembro 04, 2012
SOBRE ANTIDEPRESSIVOS
Tem a Venlaflaxina, o Hipericum e NÃO, PÉRA.
Tem esses caras:

Já vi o quê, 5, 6 vezes? Cada vez que assisto é melhor, e, definitivamente, inspira-me muito. Já citei em um post antigo uma das melhores passagens do filme, que é quando um soldado pergunta pro tenente Winters se há outros combatentes perdidos no dia D. Vai daí que Winters responde: "não estamos perdidos, soldado. Estamos na Normandia. E é incrível porque se pensarmos bem é muita maluquice saltar de um avião, à noite, em meio a bombas, e achar que dá para planejar onde pousar.
Não dá.
Você planeja e faz o seu melhor e pousa por perto do seu objetivo. Depois, chega até ele no braço.
Tem esse casal e essa música também:
Impossível não assistir uma pá de vezes, porque é tudo fofo: a voz, a letra, as caras e bocas da Clarice e do Gregório.
Aliás, qual o preconceito com um CD sobre uma pessoa só?
segunda-feira, agosto 20, 2012
HÁ UM ANO...
... estávamos iniciando o Caminho de Santiago. Na véspera, uma das missas mais emocionantes das nossas vidas:
(na nossa, todas as luzes foram apagadas no Salve Regina, só o altar consagrado a Nossa Senhora de Roncesvalles ficou aceso).
No dia 20 de agosto de 2011, o nosso primeiro passo:
Fiquei aqui super melancólico e saudoso, mas me lembrei do que a Isabela (a sempre sábia Isabela) me diz com alguma frequência: mesmo as coisas boas têm que passar, para dar espaço para outras coisas boas.
O que, no fundo, tem tudo a ver com o Caminho, já que insufla a necessidade de se andar pra frente.
Ultreya!
sexta-feira, agosto 17, 2012
AINDA SOBRE O PROCESSO DA DOR
Acho que eu nunca tinha sido portador de más notícias antes.
Graças a Deus. Pra falar a verdade eu sempre fiz o impossível para ser o
primeiro a dar uma boa notícia – por exemplo, eu fiquei dando F5 no resultado
do concurso da Isabela porque queria ser o primeiro a dizer que ela estava
aprovada. Não consegui, uma amiga foi mais rápida.
Mas tergiverso. Sobre as más notícias: eu fiz tudo muito
rápido e com eficiência. Em menos de meia hora estava a caminho, mas na verdade
queria era ter demorado. Queria que a viagem durasse a noite inteira e mais um
pouco, de modo que quando eu chegasse ela já soubesse de tudo sem ser pela
minha boca.
Ao mesmo tempo, queria oferecer meu colo imediatamente, para
que ela não se sentisse sozinha com a dor nem por um segundo. Era um plano
sofisticado e milimétrico, o meu. Deveria ser ensaiado e cronometrado à
exaustão. Mas alguém achou que não seria justo eu encarnar porto seguro sem ser
tempestade antes.
E lá fui eu em duas horas tristes e rápidolentas. Que eu não
queria que passassem, mas que passaram.
Fiz-me tempestade, mas pelo menos pude ser porto seguro.
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Já tinha reparado que o Indagações está muito mais pessoal
do que jamais havia permitido. Não sei por que ando autorizando isso.
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É muito triste quando se vai uma pessoa que gostava da
gente.
Alguém que sempre agradecia quando eu visitava.
Que fazia questão de escolher o meu presente de natal.
Que disse que eu era o namorado mais bonito que a Isabela já
tinha tido.
Que escreveu o significado de FINEP num caderninho para
poder explicar pros outros onde eu trabalho.
Já dizia o mestre Guima: as pessoas não morrem, ficam
encantadas.